04/06/2012

Plano de formação

Autor: Udo Simons

Fonte: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=12940

O crescimento de mais de dez vezes nas matrículas no ensino superior tecnológico na última década confirma a aposta do país nessa graduação como uma resposta imediata à falta de profissionais qualificados para o mercado de trabalho. Os esforços para o desenvolvimento da formação de tecnólogos vêm de governos, entidades de classe e empresas que, junto às instituições de ensino, trabalham na formatação de programas específicos para atender à necessidade de cada região.

Um dos motivos pelos quais o ensino superior tecnológico é algo premente à sociedade brasileira é o fato de o tempo investido pelos alunos nessa formação, na média de dois anos e meio, ser menor quando comparado ao período necessário para formação de um bacharel, no mínimo de quatro anos. Mas a principal característica que suscita a valoração da modalidade é a especificidade dos saberes de estudos. Como os cursos tecnológicos destinam-se ao aperfeiçoamento de conhecimentos de áreas específicas, característica comum à formação técnica, permitem atender a demandas pontuais do setor produtivo de forma mais rápida, com qualidade e status de nível superior.

Bem maior

Considerados como a "bola da vez" por especialistas em educação, os cursos superiores tecnológicos são reconhecidos por ter alta empregabilidade e baixo custo, tanto para instituições quanto para alunos. Ciente dessa condição, o governo federal pretende, a partir deste ano, difundir ainda mais a modalidade no país. Essa ação acontece por meio de um trabalho interministerial sob o braço do programa Brasil Maior, lançado pela Presidência da República em agosto do ano passado.

Em síntese, o plano objetiva sustentar o crescimento econômico brasileiro inclusivo, num contexto econômico adverso, e manter o país estável face às possíveis crises financeiras internacionais. De acordo com as metas do Executivo, o foco do Brasil Maior volta-se à inovação e adensamento produtivo do parque industrial brasileiro, objetivando ganhos sustentados da produtividade do trabalho.

De acordo com Marcos Vinícius de Souza, diretor do Departamento de Fomento à Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Brasil Maior é a resposta do governo à necessidade de mercado. "Identificaremos as necessidades do empresariado para oferecermos soluções educacionais profissionalizantes a fim de suprir as demandas", informa.

"O programa, em termos educacionais, é a ponte para transpor o que chamamos na literatura de inovação de 'vale da morte'. Ou seja, transformar o conhecimento produzido na academia e centros de pesquisa em produtos de mercado", reflete Souza, que é um dos coordenadores do comitê de Formação e Qualificação Profissional, órgão inserido no plano, composto também por representantes do Ministério da Educação.

Nas diretrizes do plano, o governo reconhece que o perfil da formação profissional nacional precisa se adequar às necessidades de crescimento baseado na inovação e que a demanda de mercado supera a oferta existente desses profissionais. Nessa lacuna vislumbra-se o potencial de expansão para o ensino superior tecnológico, embora as principais ações do governo, em termos educacionais de qualificação, estejam concentradas na formação de nível técnico médio.

Neste momento, os integrantes dos comitês do Brasil Maior estão levantando as demandas por inovação de cada um dos 19 setores elencados no projeto como prioritários ao desenvolvimento do país (veja mais na pág. 29). "Com isso, juntaremos a oferta de ensino à procura do mercado", diz Souza.

Ao ser questionado se essa ação não acontece tardiamente, o diretor pontua que não. "Há muito tempo se fala do 'apagão' da mão de obra no país. Mas se olharmos bem não faz tanto tempo assim", defende. De acordo com ele foi somente na metade da década de 2000 que o Brasil começou a apresentar forte crescimento. Ele ainda cita como exemplo o setor naval, praticamente inexistente há cinco anos.

No entanto, o diretor do MCTI reconhece o fato de termos de "correr contra o tempo" para a formação profissional. "O Brasil é muito inovador. Principalmente, em desenvolver novas tecnologias de acordo com nossa situação. Há um ambiente muito forte de inovação no país. E a educação é matéria-prima para o desenvolvimento. Precisamos investir nela constantemente", defende.

Pacto pela formação

Foi baseado nas diretrizes do Brasil Maior, mas especialmente para atender à demanda do setor industrial regional, que o governo do Rio Grande do Sul estabeleceu o Pacto pela Educação Profissionalizante, Técnica e Tecnológica: formação e desenvolvimento, reunindo empresas, instituições de ensino superior e Estado. Entre as ações desenvolvidas está o estímulo e incentivo à formação tecnológica, especialmente nas áreas consideradas cruciais para o crescimento econômico da região.

Para isso, foi criada uma espécie de ProUni gaúcho, que em agosto distribuirá 250 bolsas para cursos de formação superior de base tecnológica (leia mais na pág. 31). Os alunos beneficiados deverão ter renda familiar per capita inferior a 1,5 salário mínimo e, em contrapartida, o bolsista deverá participar de atividades complementares de inclusão produtiva e de responsabilidade social.

Cético quando do início das discussões sobre a formação do pacto, o secretário da Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico (SCIT/RS), Cleber Prodanov, que também coordena o programa, surpreendeu-se com a rápida elaboração, execução do plano e sua aceitação por todos os entes envolvidos na empreitada. "Nas primeiras conversas com o governador, quando fui chamado a integrar a equipe de constituição desse trabalho, confesso ter acreditado que seria muito difícil colocarmos em prática essa ideia. Mas me surpreendi", revela.

Entre as primeiras discussões e a iminência do início das aulas foram oito meses de trabalho. "Apesar de toda a burocracia, de ser um processo muito difícil, conseguimos trabalhar em conjunto internamente e com a sociedade civil organizada. Não há protagonistas nessa conquista. Potencializamos o esforço de todos para um resultado comum de crescimento", pondera.

Na visão dele, o pacto, de forma geral, aumenta a formação de mais e melhores recursos humanos para o mercado do trabalho. Mas esse não é o único objetivo. "Oferecemos a essas pessoas, por meio da educação, mais possibilidades de ascensão cultural e social", acrescenta.

De Santa Catarina vem outro exemplo de esforço conjunto entre sociedade e governo para reverter o tempo perdido na expansão da formação de profissionais. Uma parceria entre a Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate), prefeitura de Florianópolis e 112 empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TICs) mapeou os recursos humanos ligados ao setor na capital catarinense. A ideia foi identificar os gargalos e necessidades para aprimoramento da mão de obra existente.

O estudo identificou que nas 112 empresas consultadas trabalhavam 5.055 profissionais. Desses, 3.261 atuavam diretamente na área tecnológica, desenvolvendo ou coordenando projetos, produtos e serviços do setor. Em 2010, as empresas encerraram o ano com 560 vagas em aberto para profissionais de tecnologia. Esse número representa 17% de todos os empregados nas empresas pesquisadas.

Além disso, havia uma expectativa de contratação para o ano de 2011 de 1.517 novos profissionais, entre desenvolvedores, analistas e outros. Ou seja, apesar das vagas ociosas o setor passaria a oferecer quase três vezes mais oportunidades de emprego. E mais: em 2014, as empresas estimam a contratação de 2.397 novas pessoas. Isso representa 73% dos atuais 3.261 empregados nestas empresas.

Os resultados do estudo vieram confirmar a impressionante carência numa das áreas que mais crescem no país. "Se não investirmos na formação profissional para as TICs, não apenas as empresas deixarão de crescer. Perderemos, sim, a oportunidade de termos um país diferente", avalia Moacir Marafon, vice-presidente da Acate.

Para ele, o setor oferece às novas gerações a oportunidade de crescimento social por empregos e planos de carreira de alta tecnologia e com enorme valor agregado. Sem contar, ainda, com o impacto gerado nos centros urbanos. "Esse setor tem características desejadas por qualquer cidade. É uma indústria silenciosa. Não há caminhões transportando bits. Eliminam-se, entre outros, os problemas de mobilidade urbana", defende.

Impulso na educação

O crescimento, contudo, dessa área está intimamente ligado à educação. Por se tratar de um setor em que a matéria-prima é o conhecimento, os estudos são fundamentais para sua diversificação. "É o momento de agir. As TICs crescem exponencialmente. Precisamos fazer funcionar o tripé academia-governo-empresas", ressalta Marafon. "Se nada, ou muito pouco, fizermos vamos ter mais dificuldades para nos equiparar a outros países", acrescenta.

Ainda de acordo com o mapeamento da Acate, os profissionais mais solicitados são: analista de sistemas, programador Java e Delphi, analista e desenvolvedor. Todas essas profissões bem distintas das oferecidas até bem pouco tempo atrás. E que levam também a uma condição de empregabilidade diferente da vivida em anos passados.

Marafon lembra que ao se formar em engenharia, em 1982, era "apaixonado" por cálculos estruturais. Contudo, não conseguia vaga sequer como estagiário. "Muitos colegas desistiram da profissão depois de formados porque não encontravam trabalho", conta. "O Brasil mudou, como se observa. Os tempos são outros. Temos uma grande oportunidade para nosso crescimento", pontua.

Sem controle

Atualmente, o ensino técnico ou profissionalizante, de nível médio, é o mais difundido e estruturado nas redes de ensino, públicas e particulares, do país. O ensino superior tecnológico, apesar de coexistir nesse cenário, ainda apresenta deficiências de compreensão social e estrutura quando comparado à formação técnica de nível médio. Essa realidade existe a despeito de seu robusto e acelerado crescimento como formação educacional no país.

O Censo da Educação Superior 2010 aponta a expansão das matrículas nos cursos tecnológicos superiores. Em 2001, havia 69.797 alunos matriculados nessa modalidade de ensino, presencial ou a distância. Em 2010, saltou para 781.609 matrículas. Em termos proporcionais, as matrículas nos cursos tecnológicos passaram de 2,3%, do início da década passada, para 12,3%.

Dentre o total de 3.958,544 matrículas contabilizadas em 2010 pelo MEC, no ensino superior, nos cursos presenciais, 73% delas estavam nos bacharelados; as licenciaturas absorviam 17% do total; e o ensino superior tecnológico detinha 10% dos alunos.

Na educação a distância (EAD), o cenário é distinto. As licenciaturas lideram em número de alunos matriculados com 426.241, que representam quase a metade do total (45,8%), enquanto o bacharelado e o ensino tecnológico praticamente dividem a outra metade de matrículas, com 268.173 (28,8%) e 235.765 (25,3%) respectivamente.

São as instituições de ensino superior particulares as que mais oferecem cursos superiores tecnológicos. De acordo com levantamentos do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), matricularam-se em 2010, na rede particular de ensino, apenas na modalidade presencial, 452.699 pessoas. Já as instituições públicas, no mesmo ano, detinham 93.145 alunos em todo o país.

Em termos dos cursos, a maior parte das matrículas nas instituições particulares (presencial ou EAD) foi para a área de gerenciamento e administração - 44%; seguida de processamento da informação, com 8,5%; ciência da computação, com 6,6%; marketing e publicidade, com 6,1% e proteção ambiental (cursos gerais), com 5,1%.