28/02/2012

Mão direita

Autor: Hélio Consolaro

Não sei caro leitor, como trata as suas dores. Zunido no ouvido, esqueço; nem sei se tenho. Tenho, mas esqueço. Fiz o mesmo com minha bursite, ombro direito. Uma dorzinha à toa, esquecia, fazia de conta que não existia. Doença comum em quem exerceu o magistério.

Por isso, no fim de semana passado, fiquei com o braço direito imobilizado. A dor era tamanha, não dava para ser esquecida, que não podia fazer barba nem pentear o cabelo. O encaixe do braço no ombro estava inchado. Doía ao apertar. Valorizei ainda mais a presença de uma companheira.

Descobri porque certos velhos não usam camiseta, andam se parecendo a um beato. Cuidar da aparência, sendo destro, tendo bursite, não é fácil. Somos tão limitados que só entendemos outros por nós.

No período de inflamação exagerada, descobri minha mão esquerda, a esquecida. Ela não vê o que a direita faz. Esta trabalha, sem cobrar nada da esquerda. Até dizem os políticos que a direita faz coisa que a esquerda reprova.

Logo fui dizendo ao braço inútil:

- Seu preguiçoso, chegou a sua vez.

Assim, comecei a abrir a geladeira, fechar a porta da casa, pegar o sabonete, tudo com a mão esquerda. E fazendo outras coisas, claro. Computador, nem pensar. Horrível.

Apesar de os britânicos terem o volante à direita do carro, um costume herdado da Idade Média, dos cavaleiros medievais ao usarem o escudo, há um certo preconceito sobre a mão esquerda em nossa civilização. O canhoto é rotulado de desastrado, o desafortunado acordou com o pé esquerdo; no réveillon, desejamos ao próximo entrar no ano com o pé direito. Antigamente, o canhoto chegava à escola e apanhava, até virar destro. Que barbaridade

“Ser canhoto é ter de se adaptar a uma realidade espelhada, que se apresenta ao avesso, impondo um mundo invertido, ao contrário daquele que seu cérebro considera natural. Não que essa adaptação seja sempre difícil. Até entre os canhotos, a maioria, resignada, talvez não se dê conta do esforço” (Alessandra Ozório de Almeida)

Jesus Cristo ficou à direita de Deus, enquanto o capeta batizava com a mão esquerda. Os caminhos da esquerda levam à magia negra. Só faltam dizer que o céu fica à direita; o inferno, à esquerda. Indicados por seta. Na política, a esquerda é revolucionária.

Mas esse preconceito contra o canhoto está presente noutras civilizações também. Explica o xeque Armando Hussein Saleh, da Mesquita Brasil. "A mão direita é a das boas ações, como se alimentar, cumprimentar as pessoas. A mão esquerda é usada por satanás e os demônios, em seus atos, por isso usamos a mão direita para contrariar aquele que é nosso inimigo nº. 1."

Mas os canhotos foram à luta e hoje são reconhecidos como tal, sem necessidade de serem destros. Dia 13 de agosto é o Dia Internacional do Canhoto, com direito a ser uma sexta-feira 13. Já há até feiras de produtos para os não destros.

Há muitos canhotos famosos. Verifique a lista no site:
http://geniusbr.tripod.com/famosos.html

A bursite do Consa fez os canhotos ganharem uma crônica. Afinal, o cronista conta suas experiências, que são dos outros também, mas espero que ela fique sossegada depois daquelas pílulas ingeridas vorazmente.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Atualmente é secretário da Cultura de Araçatuba-SP